O homem é essencialmente mau

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Há algum tempo venho pensando no que escrever, pois ao mesmo tempo em que enfrento um daqueles bloqueios terríveis, sinto falta da atividade da escrita, uma vez que,  através dela, me encontro.

Nossa realidade mata qualquer inspiração. Não temos tempo para pensar e acabamos tendo uma postura totalmente reativa frente aos descalabros cotidianos.

Para tentar reencontrar o fio da meada, me lembrei de um texto que escrevi em 2020, ainda na fase inicial da pandemia, quando não tínhamos ideia do que passaríamos, das perdas que enfrentaríamos, das angústias que nos acometeriam e dos infortúnios de todos os tipos que viveríamos. Nesse texto, que refletia meu pensamento na época, eu escrevi sobre a minha esperança diante da pandemia, sobre a possibilidade de nos tornarmos pessoas melhores diante do sofrimento e de sairmos mais fortalecidos depois de tudo isso. Errei miseravelmente.

Me surpreendeu, no pior sentido, descobrir como muitas pessoas, dentre as quais, muitas do meu convívio, se comportaram nesse momento. Dói, mas dói muito mesmo. Não sei se o que dói mais é enxergar a pessoa como ela realmente é, ou então, enxergar como fui ingênuo (estou pegando leve comigo mesmo) ao não perceber o outro, ao fantasiar, talvez até projetar no outro, aquilo que eu queria que ele fosse.

As pessoas são como elas são. Muitas delas são frias, egoístas, mesquinhas e não estão nem aí para além do próprio umbigo.

Tudo isso teve seu lado positivo, bem diferente daquilo que eu, utopicamente, imaginava, mas teve. Não existe mais qualquer pudor em se assumir egoísta, mesquinho, sórdido, mentiroso, cruel, entre tantos outros adjetivos pejorativos.

Segundo o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679), autor do clássico Leviatã, “o homem é o lobo do homem”. Essa frase foi parafraseada por Hobbes, mas originalmente ela foi dita por Plautus (254 – 184 a.C), um dramaturgo romano. A ideia expressa por Plautus e, posteriormente, também por Hobbes, é a de que o homem é o seu próprio inimigo.

Hobbes foi mais enfático e disse que o ser humano é naturalmente egoísta e mau, e compete à sociedade contornar isso, através do que ele chamou de “contrato social”.

Naturalmente, o contexto de vida de Hobbes era outro e não vou me alongar nessa discussão, mas fica como dica e sugestão, para quem gostar do assunto. Vou focar exatamente nessa questão, do ser humano naturalmente egoísta e mau, afinal, é o tipo de comportamento que mais vemos evidenciado ao nosso redor.

Quero também deixar claro que minha análise não está pautada por nenhuma visão religiosa, dogmática ou mística, porém, não desprezo os efeitos que a visão religiosa, dogmática ou mística provoca na nossa própria percepção, assim como, na percepção do outro sobre nós.

A visão religiosa, visão essa que molda o pensamento da grande maioria da população mundial, sempre nos coloca o homem como a imagem e semelhança a um ser maior, perfeito, no seu sentido mais pleno. Está feita a nossa tragédia particular, afinal, se o nosso objeto de identificação é o perfeito, o que esperam que nós sejamos? Isso mesmo: perfeitos também.

Ainda que a própria religião diga que não somos perfeitos e que a perfeição é um atributo exclusivamente divino, isso já não importa muito mais, afinal, a primeira mensagem passada é a de que somos a cópia de alguém que é perfeito, portanto, nada menos do que a perfeição é esperado de nós.

O que quero dizer com toda essa divagação? Que talvez isso nos ajude a entender o sentimento de frustração, de insatisfação e de desânimo que toma conta da grande maioria das pessoas. Nós esperamos sempre a perfeição, fomos educados para isso. Assim como esperamos a perfeição do outro, o outro espera a nossa perfeição.

Em contrapartida a esse pensamento religioso, Hobbes nos joga um balde de água fria, ou de realidade, se assim o preferir. Ele nos tira do mundo da perfeição e nos joga de cara no mundo que é possível, o mundo em que habitamos e com a realidade que é esfregada em nossas caras, cotidianamente, sempre nos fazendo lembrar que o homem é essencialmente mau.

Em tempos em que tudo é interpretado literalmente e onde as pessoas se reduziram a uma lógica binária, vale ressaltar que não estou dizendo que todo ser humano é mau e que ninguém presta, antes que uma onda de cancelamento e de ódio já me abata. Sei que não é seu caso, mas não sei até onde esse texto pode chegar.

Quando nos despimos da visão religiosa e dogmática, talvez tenhamos mais facilidade em entender aquilo que hoje não entendemos. Fato é que também não estou dizendo que tenhamos que aceitar, mas sim, somente entender, pois uma coisa que falo muito e ouço com frequência é: “não consigo entender como chegamos a isso”.

Talvez não tenhamos chegado, talvez esse seja o ponto de partida e não de destino. Somos assim. A humanidade é assim. A repulsa que essa ideia pode gerar, igualmente se explica pela própria visão religiosa e dogmática, pois introjetamos a ideia de que somos bons. Será?

Livre de julgamentos morais, estou apenas levantando questionamentos e hipóteses, sem qualquer pretensão de trazer respostas ou soluções. Fato é que, diante de tantos descalabros, muitas vezes já me peguei pensando em coisas inconfessáveis, em “segredos de liquidificador”, como já cantou Cazuza, seja lá o que isso signifique. Muitas vezes me cobro por isso, afinal, eu não sou assim, eu sou uma pessoa boa. Será que sou mesmo? Cada um que responda por si…

Partindo dessa premissa, de que somos maus por natureza, vou deixar aqui o gancho para a continuidade desse texto, além de colocar um pouco de gasolina na discussão neoliberal e na falácia do Estado mínimo.

Se o ser humano é mau, existem algumas ferramentas que podem garantir uma relativa ordem social e um estado de bem-estar social, como por exemplo, a política e um conjunto de normas e leis, que estabelecendo uma analogia, foi ao que Hobbes deu o nome de “contrato social”.

As Leis existem para proteger o homem do próprio homem e garantir que exista um estado geral de bem-estar social, mas como chegar a um conjunto de Leis que garantam isso? Essa é a finalidade da política.

Sem isso, nós, a sociedade, estaremos expostos e vulneráveis ao lado mais cruel dos seres humanos com maior poder. Considerando a essência má do ser humano, por qual motivo as Leis não seriam usadas para garantir a permanência do bem-estar apenas para um pequeno grupo de pessoas? Considerando a essência má, qual o incômodo causado pela fome e pela miséria, exceto naqueles que um dia já viveram ou estiveram próximos dessa situação?

Diante disso, a política assume papel central nas definições e manutenções das regras (Leis) que possam garantir a dignidade humana, não por bondade, mas talvez até por instinto de sobrevivência, uma vez que ao estabelecer regras de dignidade humana, de certa forma, garantimos a nossa própria subsistência.

Compete ao Estado executar (Executivo), dentro desse contexto, ações que garantam a elaboração de leis justas e iguais a todos (Legislativo) e que o seu cumprimento seja feito por todos, tomando medidas, inclusive punitivas (Judiciário), se houver rompimento com esse pacto social.

O Estado, portanto, tem papel fundamental na garantia de um estado social equilibrado e justo, sem o qual, repito, estaremos sujeitos a tirania de poucos poderosos, que vão usar da sua essência má para gerar apenas benefícios próprios, não se importando com a quantidade de outros cidadãos que poderão sofrer, desde que seus próprios prazeres e benesses sejam mantidos.

A teoria neoliberal, que a todo momento tentam nos empurrar goela abaixo, com discursos sedutores, nada mais é do que a manutenção do poder nas mãos de quem já detém o poder, em resumo, a tirania oficializada e protegida pela Lei. O Estado mínimo, na verdade, nada mais é do que a normalização da barbárie, da exploração máxima e da legalização da maldade dos poderosos, que usarão de todos os artifícios disponíveis para proveito próprio, sem ter o mínimo de compaixão com quem não tem.

As constantes falas do Ministro Paulo Guedes são bons exemplos para ilustrar essa minha fala. O desprezo com que ele trata a massa da população, faminta e sem o mínimo da dignidade, apenas reafirmam essência humana má, sem os freios que precisam ser colocados pelas forças reguladoras, responsáveis por manter um estado mínimo de ordenamento social.

Entendeu para que serve o neoliberalismo e o tão propagado Estado mínimo? Para dar vazão a toda maldade, no seu sentido mais literal da palavra.

Talvez isso nos ajude a entender os absurdos que são ditos todos os dias, a falta de empatia, a falta de humanidade. Essa é a essência do ser humano, isso é o que acontece quando não temos um Estado forte, que não tem papel de corrigir a essência de cada um de nós, mas sim, de impor limites a esses instintos e garantir a sobrevivência da sociedade.

Continuaremos essa discussão em outro texto. Até lá.

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