{"id":35,"date":"2020-02-21T19:50:44","date_gmt":"2020-02-21T22:50:44","guid":{"rendered":"http:\/\/profbelini.com\/embuscadoeuperdido\/?p=35"},"modified":"2020-06-26T19:34:29","modified_gmt":"2020-06-26T22:34:29","slug":"abandono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contoseprosas.com.br\/embuscadoeuperdido\/?p=35","title":{"rendered":"Abandono"},"content":{"rendered":"\r\n<p class=\"has-drop-cap\">Voc\u00ea j\u00e1 teve a sensa\u00e7\u00e3o de ter sido abandonado e n\u00e3o conseguir entender o motivo disso? Sempre tive essa estranha sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Alguns motivos posso compreender, outros ainda n\u00e3o.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Como estou na busca do meu eu perdido, me permito refletir e questionar sobre qualquer assunto, sem dogmas, sem culpas, pois absolutamente tudo nessa vida pode ser questionado e contestado, somente se atentando a forma como isso \u00e9 feito, sempre guardando o devido respeito, mas sem questionar, nunca sairemos do lugar comum e, definitivamente, esse n\u00e3o \u00e9 o meu lugar.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O abandono nem sempre \u00e9 f\u00edsico. N\u00e3o \u00e9 abandonado somente quem foi relegado pelos pais, ou ent\u00e3o, simplesmente, por qualquer motivo, foi privado do conv\u00edvio com eles.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O abandono tamb\u00e9m ocorre quando n\u00e3o temos o suporte emocional que toda crian\u00e7a precisa, a seguran\u00e7a de poder olhar para os seus genitores, se identificar com eles e, acima de tudo, saber que, ao lado deles, se sentir\u00e1 seguro.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Via de regra, a figura materna representa a afetividade, o amor no seu sentido mais amplo e puro, o colo necess\u00e1rio nos momentos dif\u00edceis, o suporte emocional para enfrentar os medos e o exemplo maior do amor incondicional.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>J\u00e1 a figura paterna solidifica a seguran\u00e7a, tanto material quanto emocional, naturalmente, tamb\u00e9m o amor, mas o amor que \u00e9 respons\u00e1vel para, no momento certo, fazer os cortes necess\u00e1rios, dar asas aos filhos, libertando-os para seguirem os pr\u00f3prios caminhos, al\u00e7ando voos maiores, entretanto, sempre com a certeza de que, se algo der errado nesse voo,\u00a0 um lugar seguro o estar\u00e1 aguardando no retorno, sem julgamentos, sem culpas, mas com a firmeza de algu\u00e9m que est\u00e1 ali para dar esse suporte, quantas vezes forem necess\u00e1rias, at\u00e9 que, de fato, essa liberdade se concretize.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Agora, voltando ao real, essas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o as ideais, as hipoteticamente perfeitas, mas que na pr\u00e1tica, nem sempre acontecem, pois, muitos pais n\u00e3o est\u00e3o preparados para assumir esse papel, assim como, muitos de n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o estamos. Sou daqueles que acredita que para ser pai e m\u00e3e, antes deveria ser obrigat\u00f3rio fazer um curso de longa dura\u00e7\u00e3o, ou no m\u00ednimo, alguns anos de terapia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Hoje consigo entender que essa sensa\u00e7\u00e3o de abandono que me acompanha, desde muito tempo, se origina na minha inf\u00e2ncia. Eu sei que pode ser clich\u00ea, mas n\u00e3o deixa de ser um fato.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado n\u00e3o do abandono f\u00edsico, mas do abandono emocional, pois \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o que fica, para uma crian\u00e7a, que exatamente por ser crian\u00e7a, n\u00e3o possui a capacidade de discernimento para entender nada. Certamente, para um adulto, muitas das situa\u00e7\u00f5es que vivenciei, n\u00e3o fariam sentido, mas novamente, na vis\u00e3o do adulto, ali\u00e1s, na vis\u00e3o do adulto Andr\u00e9, de fato, n\u00e3o existem tantos motivos, mas na vis\u00e3o da crian\u00e7a Andr\u00e9, existe sim.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>As marcas ficam e como toda marca emocional, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel retir\u00e1-la com muita facilidade, quando se \u00e9 poss\u00edvel retir\u00e1-la.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00e3o vou entrar na fase da cobran\u00e7a, at\u00e9 porque, certamente meus pais fizeram o que poderia ser feito, com os recursos que eles dispunham naquele momento, mas a crian\u00e7a n\u00e3o entende isso e at\u00e9 hoje briga com o passado.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em minha mem\u00f3ria tenho vivas cenas de quando tinha aproximadamente dois anos de idade, talvez at\u00e9 um pouco menos. Se voc\u00ea me perguntar o que fiz ontem, provavelmente terei que parar para pensar, mas me lembro de coisas de quatro d\u00e9cadas atr\u00e1s e isso me faz compreender que existem fortes raz\u00f5es para tal, algo muito forte, do contr\u00e1rio, isso n\u00e3o estaria vivo em mim at\u00e9 hoje.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A crian\u00e7a Andr\u00e9 sempre foi solit\u00e1ria, pois nessa fase da minha vida, morei em s\u00edtios, portanto, sem muito conv\u00edvio com outras crian\u00e7as. Essa crian\u00e7a buscava ref\u00fagio num mundo \u00e0 parte, que me lembro como se me visse num filme e, assim como numa pel\u00edcula, a realidade se mistura \u00e0 fic\u00e7\u00e3o, produzindo cenas que, por vezes, acredito serem verdadeiras e, por vezes, penso ser fruto da minha criativa mente infantil.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Embora sozinho, me lembro de brincar muito e essas lembran\u00e7as hoje s\u00e3o mais fortes ainda, talvez porque o adulto est\u00e1 indo de encontro com o passado e, confesso, estou curioso pelo momento onde o homem Andr\u00e9 encontrar\u00e1 a crian\u00e7a Andr\u00e9. Acredito que ser\u00e1 um encontro emocionante e haver\u00e1 assunto para muito tempo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Hoje, depois de anos de terapia, consigo me libertar de muitas m\u00e1goas, mas sinto que a crian\u00e7a ainda est\u00e1 perdida, por vezes brinca, por vezes chora, por vezes corre ainda sem saber para onde. Talvez corra do pr\u00f3prio destino.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A brincadeira, ainda que solit\u00e1ria, foi a maneira que encontrei para manter minha mente s\u00e3. Um dia ouvi da minha terapeuta, que mesmo em situa\u00e7\u00f5es de guerra, sobrevive quem consegue brincar, pois cria um mundo de ref\u00fagio, onde a dor real n\u00e3o entra. Um lindo filme que ilustra essa figura mental \u00e9 o filme A Vida \u00e9 Bela, onde mesmo nos horrores dos campos de concentra\u00e7\u00e3o, um menino passa intoc\u00e1vel por esses horrores, acreditando estar participando apenas de um jogo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O maior jogo que jogamos \u00e9 a nossa pr\u00f3pria vida, \u00e9 o desafio di\u00e1rio de tentar imaginar uma brincadeira para fugir da realidade dura, sem se alienar, mas encontrando humor para sobreviver em meio ao caos, pois \u00e9 isso que nos mant\u00e9m a salvo de um surto.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Existem gatilhos que despertam um turbilh\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es e, para mim, um desses gatilhos \u00e9 a m\u00fasica. Atrav\u00e9s da m\u00fasica consigo viajar ao passado, assim como, fazer proje\u00e7\u00f5es para o futuro.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma dessas m\u00fasicas que sempre mexeu muito comigo \u00e9 a can\u00e7\u00e3o 93 Million Miles, do cantor Jason Mraz, e acredito que seja por tocar exatamente nesse meu ponto fraco. No caso, a m\u00fasica fala exatamente desse porto seguro, da dist\u00e2ncia que pode existir, mas da seguran\u00e7a em saber que sempre haver\u00e1 para onde voltar, fato que n\u00e3o vivi, pelo contr\u00e1rio, e numa invers\u00e3o de pap\u00e9is, acabei sempre sendo o porto seguro, desde muito cedo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Como tudo na vida, dessa situa\u00e7\u00e3o tirei boas li\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m, grandes consequ\u00eancias.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Uma dessas consequ\u00eancias foi sempre carregar um peso muito maior ao que eu estava preparado para suportar. Acredito que isso possa explicar parte das dores f\u00edsicas que sinto todos os dias, dores que muitas vezes me paralisam, assim como, muitas vezes me senti paralisado durante minha inf\u00e2ncia e juventude.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Minhas dores andam pelo corpo, como n\u00e3o entendendo o lugar onde devem ficar, parece que est\u00e3o perdidas, tentando achar o seu espa\u00e7o, assim como eu muitas vezes me senti e ainda sinto, ao trazer \u00e0 tona aquela crian\u00e7a que sentia dores emocionais e n\u00e3o entendia qual era o seu papel, se era o da crian\u00e7a, do pai ou da m\u00e3e.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Clinicamente, meu diagn\u00f3stico \u00e9 o de dor cr\u00f4nica ou fibromialgia, mas vejo que essa dor cr\u00f4nica transcende ao corpo, a dor est\u00e1 cr\u00f4nica na alma, apenas refletindo no corpo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Por v\u00e1rias vezes j\u00e1 me peguei imaginando o encontro do adulto Andr\u00e9 com a crian\u00e7a Andr\u00e9. Podem achar que sou louco, mas j\u00e1 elaborei at\u00e9 di\u00e1logos mentais. Acredito que o adulto Andr\u00e9 tem tanta coisa para dizer para aquele menino Andr\u00e9, que se sentia t\u00e3o sozinho, com tantos medos, que s\u00e3o comuns das crian\u00e7as.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Minha vontade \u00e9 pegar aquele menino, coloc\u00e1-lo no colo, fazer-lhe um carinho, dar um abra\u00e7o bem apertado e dizer, ao p\u00e9 do ouvido, que vai ficar tudo bem, que ele n\u00e3o precisa ter medo do futuro, pois o futuro \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, uma luta constante e que pode ser modificado a todo momento.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Diria ainda para que ele n\u00e3o se cobrasse tanto, afinal, ele \u00e9 s\u00f3 uma crian\u00e7a e uma crian\u00e7a n\u00e3o tem que pensar em coisas de adultos, que aproveitasse o seu tempo para brincar e aprontar, porque a vida passa r\u00e1pido demais e as responsabilidades chegam.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Diria tamb\u00e9m para que ele escutasse o seu cora\u00e7\u00e3o, pois o cora\u00e7\u00e3o de toda crian\u00e7a \u00e9 puro, t\u00e3o puro que \u00e9 poss\u00edvel ouvir Deus falando atrav\u00e9s dele. Que ele n\u00e3o se deixasse contaminar pelas pessoas negativas que ele encontraria pela vida, muitas delas, vindas da pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>N\u00e3o sei ainda o que o menino Andr\u00e9 iria me falar, talvez apenas se calasse e me ouvisse, talvez chorasse, n\u00e3o de tristeza, mas pela alegria de ter algu\u00e9m sempre pronto para lhe dar suporte.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Finalizando essa conversa, falaria para ele que n\u00e3o se cobrasse tanto pela vida dos adultos que o cercam, pois ele n\u00e3o tem responsabilidades sobre isso, que a sua \u00fanica responsabilidade \u00e9 a de brincar, aprender a jogar futebol, andar de bicicleta, coisa que esse menino nunca aprendeu, porque sempre teve grandes coisas para pensar.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Fico imaginando que isso traria paz a esse garoto e agora, fechando os olhos, vejo esse garoto me beijando a face e correndo para brincar.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Creio que esse encontro seria m\u00e1gico e quem sabe, de alguma forma, trouxesse a liberta\u00e7\u00e3o, tanto ao menino quanto a mim.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Agora, em minha mente, tenho a vis\u00e3o do homem e do menino, de m\u00e3os dadas, come\u00e7ando uma grande caminhada. O menino olha para o adulto e sorri com a seguran\u00e7a de quem tem um adulto para defend\u00ea-lo.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O adulto olha para a crian\u00e7a com a confian\u00e7a de ser capaz de proteger aquele pequeno ser e que, juntos, far\u00e3o uma grande caminhada, que ao menos dessa vez, ser\u00e1 menos perigosa.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Eles sabem que ter\u00e3o muito a aprender, um com o outro, e que ao final do caminho, ser\u00e3o um s\u00f3.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n<p><br \/><!--StartFragment--><\/p>\r\n\r\n<p>Gostou? 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